quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Os Anos 20 Eram Uma Festa
Ernest Hemingway veio comigo e ficamos hospedados na academia de Jack
Dempsey. Hemingway tinha acabado de escrever dois contos sobre boxe, e,
embora eu e Gertrude Stein tivéssemos achado que estavam bonzinhos, ainda
precisavam de algumas mexidas. Dei um gozada em Hemingway sobre o romance
que ele estava escrevendo e rimos a valer e nos divertimos um bocado e então
calçamos as luvas de boxe e ele me acertou o nariz.
Naquele inverno, Alice B. Toklas, Picasso e eu alugamos uma villa no sul da
França. Eu estava revisando as provas do meu romance, que já era considerado o
grande romance americano, mas as terras eram tão miudinhas que não consegui
chegar ao fim dele.
Toda a tarde, Gertrude Stein e eu costumávamos procurar objetos raros
nos antiquados, e lembro-me de lhe ter perguntado se ela achava que eu devia
continuar escrevendo. Com aquele seu jeito tipicamente oblíquo que nos encantava
a todos, ela disse “Não”, o que naturalmente queria dizer sim. Portanto, embarquei
para a Itália no dia seguinte. A Itália me lembrava Chicago, principalmente Veneza,
porque ambas as cidades têm canais e suas ruas são cheias de estátuas e catedrais
construídas pelos maiores artistas do Renascimento.
Naquele mês, fomos ao estúdio de Picasso em Áries, que então ainda era
chamada Rouco ou Zurique, até que os franceses a rebatizaram em 1589 sob Luís,
O Vago (Luís foi um rei bastardo do século XVI, que não dava colher de chá a
ninguém). Picasso estava justamente começando o que depois seria conhecido
como sua “fase azul”, mas, como parou para tomar café comigo e com Gertrude,
sua “fase azul” só começou, na realidade, uns 10 minutos depois. Durou quatro
atos. Portanto, não creio que aqueles 10 minutos tivessem feito muita diferença.
Picasso era um sujeito baixinho que andava de maneira engraçada, pondo
um pé na frente do outro ate completar o que costumava chamar de “passos”.
Ríamos muito, mas, por volta de 1930, o fascismo começou a crescer e já quase não
havia do que rir. Gertrude Stein e ele examinávamos os quadros de Picasso com
muito rigor, e Gertrude era da opinião de que “a arte, qualquer arte, não passa de
uma expressão de alguma coisa”. Picasso não concordava e respondia: “Não me
encha o saco. Deixe-me almoçar.” Acho que ele tinha razão. Pelo menos almoçava
regularmente.
O estúdio de Picasso era totalmente diferente do de Matisse. Enquanto o
de Picasso era uma bagunça, Matisse mantinha o seu em perfeita ordem. Vice-versa
também,Em setembro daquele ano, Matisse aceitou uma proposta para pintar um
afresco, mas, com a doença de sua mulher, não pôde terminar o trabalho e, por
isso, eles tiveram de se contentar com papel de parede. Lembro-me de tudo isso
perfeitamente porque foi logo antes daquele inverno que passamos num pequeno
apartamento no norte da Suíça, onde a chuva tem o estranho hábito de começar c,
de repente, parar. Juan Gris, o cubista espanhol, convenceu Alice Toklas a posar
para uma natureza morta e, com a sua característica concepção abstrata dos
objetos, começou a quebrar-lhe a cara e o resto do corpo para reduzi-lo às formas
geométricas básicas, mas nunca chegou a concluir a obra porque a polícia interveio.
Gris era um espanhol provinciano, e Gertrude Stein dizia sempre que só um
verdadeiro espanhol podia ter feito o que ele fez; tentar criar obras-primas a partir
do nada e ainda falar espanhol ao mesmo tempo. Era realmente um deslumbre.
Recordo-me que, teria tarde, estávamos sentados num bar de lésbicas no
sul da França, com nossos pés confortável mente instalados no parapeito da
varanda, a qual ficava no norte da França, quando Gertrude Stein disse: “Estou
enojada”. Picasso achou muito engraçado e Matisse e eu tomamos isso como uma
espécie de senha para irmos à África. Sete semanas depois, no Quênia,
encontramos Hemingway, já bronzeado e de barba e dominando totalmente o
estilo seco e descritivo que o caracterizaria. Ali, no chamado continente negro,
jactou-se umas mil vezes de ter quebrado caras de uns e outros.
“Que que há, Ernest?”, perguntei. Hemingway falou longamente sobre a
morte e a aventura, daquele jeito que só ele sabia e, quando acordei, ele já havia
armado a barraca e estava fazendo uma enorme fogueira para cozinhar alguns tiragostos
de dois ou três elefantes que acabara de abater. Brinquei com ele sobre sua
barba e rimos à beca e tomamos conhaque e então calçamos as luvas de boxe e ele
acertou meu nariz.
Naquele ano voltei a Paris para falar com um compositor europeu,
magrinho e nervoso, de nariz aquilino e olhos incrivelmente rápidos, e que um dia
se tornaria Igor Stravinsky e, mais tarde, seu próprio melhor amigo. Hospedei-me
na casa de Man e Sting Ray, e Salvador Dali apareceu várias vezes para jantar,
sendo que certo dia Dali resolveu dançar a dança do ventre, o que foi um enorme
sucesso, principalmente porque ele estava com dores de prisão-de-ventre,
Lembro-me de que, uma noite, Scott Fitzgerald e sua mulher Zelda
resolveram voltar para casa depois de uma agitada festa de réveillon. Estávamos em
abril. Havia três meses que não ingeriam nada senão champanha e, na semana
anterior, tinham, despencado com sua limusine de um rochedo de 30 metros,
caindo no oceano, apenas para pagar uma aposta. Os Fitzgerald eram autênticos,
isto ninguém pode negar. Eram pessoas muito simples e, quando Grant Wood
convidou-os a posar para o seu “Gótico Americano”, ficaram simplesmente
encantados. Mas, pelo que Zelda me contou, Scott vivia deixando cair o forcado.
Nos anos seguintes, eu e Scott ficamos cada vez mais amigos e muitos
acreditam que ele tenha baseado o protagonista de seu último romance em mim e
que eu teria baseado minha vida no protagonista de seu romance anterior, e o
resultado é que eu acabei sendo processado por um personagem de ficção.
Scott tinha sérios problemas para disciplinar seu trabalho e, embora ambos
adorássemos Zelda, chegamos à conclusão de que ela produzia um efeito negativo
em seu trabalho, reduzindo a sua produção de um romance por ano a uma
esporádica receita anual de peixe e a uma série de vírgulas.
Finalmente, em 1929, fomos todos juntos à Espanha, onde Hemingway
apresentou-me a Manolete, o qual era tão sensível que chegava a parecer
efeminado. Usava constantemente calças justas de toureiro e, ocasionalmente, salto
alto. Manolete era um grande artista, dos maiores. Se não tivesse se tornado um
excepcional toureiro, possuía tanta graça que teria ficado famoso no mundo inteiro
como guarda-livros.
Divertimo-nos a valer na Espanha e viajamos e escrevemos e Hemingway
levou-me para pescar atum e pesquei quatro latas e timos muito e Alice Toklas
perguntou-me se eu estava apaixonado por Gertrude Stein porque havia-lhe
dedicado um livro de poemas, embora os poemas fossem de T.S. Eliot e eu disse
que sim, que a amava, mas que a coisa nunca daria certo porque ela era muito
inteligente para mim, e Alice Toklas concordou, e então calçamos as luvas de boxe
e Gertrude Stein acertou meu nariz.
domingo, 7 de setembro de 2008
Inspiradíssima!
terça-feira, 2 de setembro de 2008
O Gênio Irlandês
Vamos velejar. Velejar com
O queixo de Forgath para Alexandria,
Enquanto os irmãos Beamish
Correm rindo para a torre,
Orgulhosos de suas gengivas.
Mil anos se passaram desde que
Agamenon disse: "Não abram
Os portões, para que serve
Um cavalo deste tamanho?"
Qual é a ligação? Apenas que
Shaunnesy recusou-se a pedir
Um aperitivo com a comida.
Embora a ele tivesse direito.
E o bravo Bixby, apesar de sua
Semelhança com um pica-pau,
Não conseguiu reaver suas cuecas
De Sócrates sem o talão.
Parnell sabia a resposta, mas
Ninguém se atrevia a perguntar-lhe.
Ninguém exceto Lafferty, cuja
Anedota do lápis-lazúli obrigou
Uma geração inteira a aprender
Como se dança o samba.
É verdade que Homero era cego
E só por isso andava com
Determinadas mulheres.
Mas Egno e os druidas foram
Testemunhas da luta do homem
Para conseguir profundas transformações.
Blake também aspirava a isto, além de
O'Higgins, que teve o seu terno roubado
Embora com ele estivesse vestido.
A civilização tem a forma de um círculo
E repete-se indefinidamente,
Enquanto a cabeça de O'Leary
Lembra mais um trapezóide.
Alegria, alegria! E, de vez em quando,
Telefonem para sua mãe a cobrar.
"Poemas anotados de Sean O'Shawn", o grande poeta irlandês.
- Woody Allen, "Sem Plumas".
Explicação: "O Gênio Irlandês", de Woody Allen.
Queixo de Fogarth. Sem dúvida, uma referência a George Fogarth, que convenceu O'Shawn a tornar-se poeta e assegurou-lhe que, mesmo assim, ele continuaria a ser convidado para festas. Fogarty publicava uma revista de poesia e, embora a circulação se limitasse à sua mãe, seu prestígio era internacional.
Fogarty era um irlandês bonachão e sanguíneo, cuja idéia de uma grande farra consistia em deitar-se numa praça pública e imitar um alicate. Pouco depois de seu contato com O'Shawn, sofreu um colapso nervoso e foi preso por comer as próprias calças numa Sexta-Feira Santa.
O queixo de Fogarty era objeto de grande ridículo, por ser, de tão pequeno, quase inexistente. Um dia, disse O'Shawn: "Daria tudo por um queixo maior. Se não encontrar um rapidamente, vou fazer uma besteira!" Por falar nisso, Fogarty era amigo de Bernard Shawn, o qual permitiu certa vez que ele lhe tocasse a barba branca, desde que, em seguida, sumisse da sua frente.
Alexandria. Referências ao Oriente Médio aparecem freqüentemente na obra de O'Shawn, e seu famoso poema que começa com "Para Belém, numa bolha de sabão..." trata exaustivamente do problema hoteleiro pelo ponto de vista de uma múmia.
Os irmãos Beamish. Dois idiotas que tentaram ir de Belfast à Escócia, enviando-se mutuamente pelo correio.
Liam Beamish freqüentou um colégio jesuíta com O'Shawn, mas foi expulso por fantasiar-se de castor. Quincy Beamish era mais introvertido e usou uma copa de abajur na cabeça até a idade de 41 anos.
Os Beamish costumavam implicar com O'Shawn, devorando sua comida antes que ele ao menos a provasse. Meso assim, O'Shawn gostava deles e recorda-os com carinho em seu melhor soneto (Meu amor é um iaque), no qual são retratados simbolicamente como pernas de mesa.
A torre. Quando O'Shawn saiu da casa dos pais, foi viver numa torre em Dublin. Era uma torre baixinha, com pouco mais de 1 metro e meio, ou seja, alguns centímetros a mais do que ele. Dividiu esta residência com Harry O'Connell, um amigo com pretensões literárias cuja peça, O Boi Almiscarado, só não chegou a estrear porque o elenco foi posto a dormir com clorofórmio.
O'Connell foi uma grande influência no estilo de O'Shawn, e chegou a convencê-lo de que nem todo poema precisava começar com o verso "As rosas são vermelhas, e as violetas, azuis".
Orgulhosos de suas gengivas. Os irmãos Beamish tinham gengivas incríveis. Liam Beamish era capaz de tirar sua dentadura postiça e mastigar amendoim com as gengivas, o que fez durante 16 anos, até lhe contarem que não existia tal profissão.
Agamenon. O'Shawn era obcecado pela Guerra de Tróia. Não conseguia admitir que um exército fosse estúpido a ponto de aceitar um presente dado pelo inimigo em tempo de guerra. Principalmente quando soube que os troianos se aproximaram do cavalo de madeira e ouviram risadinhas abafadas. Esse episódio parece ter traumatizado o jovem O'Shawn e, pelo resto da vida, obrigou-o a examinar cuidadosamente todo presente que recebia, a ponto de, certa vez, ter perscrutado o interior de um par de sapatos com uma lanterna gritando: "Ei, vocês! Saiam daí!"
Shaunnesy. Michael Shaunnesy foi um místico e ocultista que convenceu O'Shawn de que haveria uma vida além-túmulo para aqueles que tivesses economizado barbante antes de morrer.
Shaunnesy acreditava também que a lua influenciava as ações humanas, e que quem cortasse o cabelo durante um eclipse ficaria estéril. O'Shawn foi um seguidor fiel de Shaunnesy e devotou grande parte de sua vida ao estudo do ocultismo, embora nunca tivesse conseguido o seu objetivo de entrar numa sala pelo buraco da fechadura.
A lua aparece freqüentemente nos ultimos poemas de O'Shawn, e ele disse a James Joyce que um de seus grandes prazeres era mergulhar o braço numa tijela de sopa em noites de luar.
A referência ao fato de Shaunnesy recusar o aperitivo refere-se provavelmente à época em que os dois jantaram juntos em Inesfree, quando Shaunnesy soprou ervilhas através de um canudinho numa senhora gorda, apenas porque ela discordou de suas idéias sobre embalsamento.
Bixby. Eamon Bixby. Um fanático que pregava o ventriloquismo como solução para todos os problemas do mundo. Era um grande estudioso de Sócrates, mas discordava do filósofo grego na questão da "boa vida", a qual Bixby considerava impossível, a menos que toda a humanidade tivesse o mesmo peso.
Parnell sabia a resposta. A resposta a que O'Shawn se refere é "Estanho", e a pergunta é: "Qual é o principal produto de exportação da Bolívia?" É compreensível que ninguém perguntasse isso a Parnell, embora fosse desafiado certa vez a dizer o nome do maior quadrúpede de penas sobre a Terra e tivesse respondido "A galinha", sendo por isto muito criticado.
Lafferty. Pedicure de John Millington Synge. Indivíduo fascinante que teve um furioso aso de amor com Molly Bloom, até descobrir que ela não passava de um personagem de ficção.
Lafferty era chegado a certas brincadeiras e, um dia, usando farinha de rosca e um ovo, panou o céu da boca de Synge. Como conseqüência, Synge passou a caminhar de maneira estranha, meio manquitola, o que levou seus seguidores a imitá-lo, achando que, se copiassem aquela maneira de andar, também escreveriam boas peças. Daí os versos: "Obrigou / Uma geração inteira a aprender / Como se dança o samba".
Homero era cego. Homero foi um símbolo para T. S. Eliot, a quem O'Shawn considerava um poeta de "imenso escopo, mas com pouco fôlego".
Os dois se conheceram em Londres, durante os ensaios Morte na Catedral (então, aínda intitulada As Pernas de Um Milhão de Dólares). Foi O'Shawn quem convenceu Eliot a raspar suas costeletas e abandonar a idéia de formar-se dançarino de flamenco. Em seguida, os dois redigiram um manifesto estabelecendo os objetivos da nova poesia, um dos quais o de escreverem menos poemas sobre coelhos.
Egno e os druidas. O'Shawn era cidrado na mitologia celta e , num de seus poemas mais célebres, contou como os deuses da velha Irlanda transformaram um casal de jovens amantes numa coleção completa da Encyclopaedia Britannica.
Profundas transformações. Provavelmente refere-se ao desejo de O'Shawn de "reformar a raça humana", que ele considerava basicamente depravada, especialmente os jóqueis. (O'Shawn era tão pessimista que, para ele, a humanidade não produziria nada de bom se não reduzisse a temperatura do corpo, já que 36,7° eram, segundo dizia, "insuportáveis".
Blake. O'Shawn era um místico e, como Blake, acreditava nas forças ocultas. Isto lhe foi confirmado quando seu irmão Ben, o que O'Shawn atribuiu à Providência Divina, embora tivesse custado 17 anos a seu irmão para enfiar a língua de volta na boca.
O'Higgins. Patrick O'Higgins apresentou O'Shawn a Polly Flaherty, que se tornaria sua mulher depois de 10 anosde namoro, tempo em que os dois limitaram-se a se encontrar secretamente e arfar um para o outro. Polly nunca percebeu o alcance do gênio de seu marido e disse aos mais íntimos que, em sua opinião, O'Shawn seria menos lembrado por sua poesia do que pelo hábito de emitir curiosos guinchos quando comia maçãs.
A cabeça de O'Leary. Refere-se ao Monte O'Leary, onde O'Shawn pediu Polly em casamento pouco antes que ela despencasse lá de cima. O'Shawn foi visitá-la no hospital e conquistou definitivamente seu coração, ao oferecer-lhe o seu poema A Decomposição da Carne.
Telefonem para sua mãe a cobrar. Enquanto agonizava, a mãe de O'Shawn, Bridget, implorou a seu filho que abandonasse a poesia e se tornasse vendedor de aspiradores. O'Shawn não podia concordar com aquilo e sofreu angústia e culpa pelo resto da vida, embora tivesse conseguido vender um aspirador para W. H. Auden e outro para Wallace Stevens, durante um congresso internacional de poesia em Genebra.
sexta-feira, 25 de julho de 2008
Alguns aforismos de Karl Kraus
"Entre a linguagem e a guerra pode verificar-se por exemplo a seguinte relação: o fato de a língua que mais cristalizou na frase feita e no artigo de armazém declarar também a propensão e a disposição para substituir a substância por um sucedâneo da inflexão de voz, para achar convictamente irrepreensível em si própria aquilo que nos outros só é motivo de crítica, para denunciar indignadamente aquilo que também se tem o hábito de fazer, para prender toda a dúvida num emaranhado de frases, e para afastar sem custo como um ataque inimigo toda a suspeita de que nem tudo está em ordem".
"As palavras de um poeta, o amor de uma mulher, são sempre coisas que acontecem pela primeira vez."
"Os povos que ainda adoram fetiches jamais descerão ao ponto de supor que a mercadoria tem alma.""Política é efeito cênico (...) política e teatro: o ritmo é tudo; o significado nada."
"Não há mais produtores, apenas mais representantes".
"A democracia divide os seres humanos em trabalhadores e ociosos. Ela não foi instituída por aqueles que não tem tempo para o trabalho."
"Nossa cultura de três gavetas: trabalho, lazer e instrução; quando uma está aberta as outras se fecham."
"Toda vida no Estado e na sociedade reside na pressuposição tácita de que o ser humano não pensa. Uma cabeça que, em todas as situações, não represente um receptáculo vazio terá dificuldades no mundo."
"Desprezemos as pessoas que não têm tempo. Lamentemos as pessoas que não têm trabalho. Mas os homens que não têm tempo para o trabalho, que sejam invejados!"
"A arte só pode nascer da recusa. Só do grito, não da aquietação. A arte, chamada como conforto, abandona com uma maldição o quarto onde a humanidade agoniza. Faz da desesperança o caminho para a realização plena."
domingo, 20 de abril de 2008
Canção de Amor da Jovem Louca
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)
Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)
Sylvia Plath
quarta-feira, 5 de março de 2008
domingo, 5 de agosto de 2007
Absurdo
sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges falsas e
não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a
vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é o divino.
Estabelecer teorias, pensando-as paciente e honestamente, só para depois
agirmos contra elas - agirmos e justificar as nossas acções com teorias que as
condenam. Talhar um caminho na vida, e em seguida agir contrariamente a seguir
por esse caminho. Ter todos os gestos e todas as atitudes de qualquer coisa que
nem somos, nem pretendemos ser, nem pretendemos ser tomados como sendo.
Comprar livros para não os ler; ir a concertos nem para ouvir a música nem
para ver quem lá está; dar longos passeios por estar farto de andar e ir passar dias
no campo só porque o campo nos aborrece.
Fernando Pessoa
sábado, 9 de junho de 2007
quinta-feira, 7 de junho de 2007
A Lucidez Perigosa
Clarice Lispector
segunda-feira, 4 de junho de 2007
quarta-feira, 30 de maio de 2007
UM PESADO GRACEJO
O alegre e feliz Voltaire dizia: "Amamos a vida, porém o nada não deixa de ter o seu lado bom". Em outra parte dizia: "Ignoro o que seja a vida eterna, mas esta é um pesado gracejo".
Schopenhauer
O TEATRO E OS ARTISTAS
Os otimistas quiseram adaptar o mundo ao seu sistema, e apresentá-lo a priori como o melhor dos mundos possíveis. O absurdo é evidente.
Dizem-me para abrir os olhos e contemplar a beleza do céu iluminado pelo sol, as montanhas, os vales, as torrentes, as plantas, os animais, que sei eu! Acaso será o mundo uma lanterna mágica?
A contemplação é bela, confesso, mas aí representar, é coisa completamente diferente.
Após o otimista surge o homem que nos fala das causas finais, e elogia as sábias leis que preservam os astros de se chocarem no seu percurso; que evitam o mar e a terra de se confundirem, e os mantém separados; que faz com que nem o frio nem o calor sejam eternos, e que, pela inclinação da eclítica, não permite a primavera, ser eterna podendo assim amadurecer os frutos, etc. Mas tudo isso não são mais que simples conditiones sine quibus non. Porque se os planêtas devem ter uma existência mais longa, embora seja o período que demora em chegar a êles a luz de uma estrêla longínqua, e se não desaparecem após o nascimento, era preciso que as coisas estivessem mal arquitetadas, para que a base fundamental ameaçasse ruína. Chegamos aos resultados desta obra tão elogiada, e observamos os atores que se movimentam nesta, tão sábia e solidamente construída. Vemos que a dor aparece juntamente com a sensibilidade, e à medida que esta se torna inteligente, a dôr e o desejo caminham par a par, e o primeiro chega a tal desenvolvimento que finalmente, a vida do homem nada mais é que um assunto trágico ou cômico.
A sinceridade de certos homens não lhes permite a união ao côro dos otimistas, e com êles entonar a aleluia.
Schopenhauer
O ETERNO ESTRIBILHO
Os homens assemelham-se a relógios que não sabem por-que andam: cada vez que um nôvo ser nasce, dá-se corda no relógio da vida humana para seguir repetindo o eterno e gasto estribilho de uma caixa de música, frase por frase, compasso por compasso, com pequenas variações.
Schopenhauer
